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Espaço dedicado aos bares e restaurantes do passado e do presente de Natal e Grande Natal.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Uma sugestão para tira-gosto de cerveja e cachaça?
Tilápia vira hambúrguer, linguiça e risoto em merenda escolar do RN
Priscila
Tieppo
Do UOL, em São Paulo
Do UOL, em São Paulo
O projeto foi iniciado na cidade há quatro anos, servindo aos alunos do ensino fundamental e médio apenas filé de tilápia em preparos simples. Hoje, estudantes de 11 escolas em quatro municípios do Estado já consomem o peixe, em preparos diversos.
A ideia de incluir o peixe na merenda surgiu entre os produtores da Aquapo (Associação de Aquicultores de Apodi), uma referência em criação de tilápias no Rio Grande do Norte, e virou realidade com a colaboração do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas).
Através desse programa, a associação fornece às escolas de Apodi cerca de 150 quilos de filé mensalmente, a R$ 17 o quilo.
"Manter os recursos no próprio município é um dos grandes desafios [da administração] e, ao beneficiar criadores locais com a compra direta, o projeto está dando um passo importante para o fortalecimento da economia. Além disso, temos o ganho na saúde das crianças", afirma a coordenadora da carteira de Aquicultura e Pesca do Sebrae Nacional, Newman Costa.
Neste ano, a tilápia também chegou a escolas de Umarizal, Itaú e Severiano Melo. O objetivo é implantar a medida em mais municípios do Estado. A expansão do projeto, promovido pelo Setorial de Piscicultura do Sebrae-RN e desenvolvido pela secretaria estadual de Educação, terá início nos próximos meses.
Cozinheiras são treinadas para preparar o novo cardápio
Para preparar as novas receitas, foram treinadas 37 cozinheiras de escolas potiguares. Elas receberam orientações sobre como manipular o peixe, desde a limpeza até o processamento do filé da tilápia.Antes de os pratos serem definitivamente integrados ao cardápio, os alunos participaram de uma degustação para dizer se aprovavam os novos sabores. O resultado foi positivo, de acordo com o Sebrae.
"Pensei que não ia gostar porque é de peixe, mas gostei de tudo, e mais ainda da sopa de legumes com tilápia", diz Neyver Alves, estudante que participou da degustação em Apodi.
Apesar de terem sido criados diversos produtos com tilápia, como hambúrguer e linguiça, a indicação do projeto é que as escolas deem preferência à oferta de filé aos alunos.
"Os pratos devem ser elaborados de acordo com a cultura dos municípios e ingredientes disponíveis. São comuns o mugunzá (espécie de mingau com milho branco) e macarrão com tilápia", afirma o coordenador de aquicultura do Sebrae-RN, Renato Gouveia.
Peixe na merenda aumentou a demanda no Estado
A Aquapo produz mensalmente 1.500 kg de tilápia, mas acredita que o volume deverá crescer. "Acho que o peixe não sai mais da merenda", diz o presidente da associação, Antônio Francisco de França."O consumo maior era de outras carnes, como o frango e a carne bovina. Hoje, as pessoas percebem que podem fazer vários pratos com este peixe e isso aumenta a demanda", afirma. Segundo França, a associação fornece o peixe às escolas há três anos.
De acordo com o Sebrae, são produzidas de 80 a 90 toneladas por ano nas associações em que o serviço atua no país. Cerca de 10% do total seguem para a merenda escolar, em programas que também incluem o Piauí e o Espírito Santo.
Tilápia tem sabor suave e é rica em proteína, diz nutricionista
Fonte de proteínas e minerais, a tilápia agrega valores nutricionais à merenda. De acordo com Adriane Antunes, professora do curso de Nutrição da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), 100 gramas do peixe oferecem de 13 a 18 gramas de proteína."Vejo como principais vantagens o fato de ser um peixe amplamente criado em cativeiro e de sabor suave. Como algumas pessoas, especialmente crianças, rejeitam a ingestão de peixes devido ao forte aroma e sabor, as características da tilápia tornam essa opção altamente atrativa", afirma.
Ampliar
O pirarucu é um dos peixes de água doce mais explorados
no Brasil. Por conta de seu alto valor comercial (mede 3 metros e chega a 200
kg), está entre as espécies mais suscetíveis à extinção. Um processo de salga
está fazendo o peixe ser chamado de "Bacalhau da Amazônia", embora seja
diferente do verdadeiro bacalhau Leia
mais Jimmy Christian/Divulgação
domingo, 13 de outubro de 2013
O Clube dos Inocentes - Autor: José Melquíades. FINAL
Saturnino,
Renato e Cascudo
Lá pelos
meados de 1953, quando eu contava 6 meses de casado, num belo domingo
ensolarado, chegam lá na minha casa, Saturnino, Renato Gouveia e Câmara
Cascudo. Morava no mesmo local, onde ainda moro, numa casa que mandei derrubar
e sobre seus escombros levantei uma outra: minha residência de hoje. O bairro
não se chamava Santo Reis, a região era deserta, cheia de morros e dunas,
conhecida por Montagem ou Praia da Limpa. Havia luz, mas não existia água encanada. Seus poucos habitantes
obrigavam-se a recorrer a chafariz ou servi-se da água salobra dos reservatórios
do porto, destinados a lastro dos navios. Bem, isso não vem muito ao caso;
serve apenas de ilustração ao fato. Lá me aparecem Saturnino e Cascudo num
velho carro Ford dirigido por Renato do banco. Renato já se tinha confirmado na
presidência do Clube dos Inocentes e essa ingênuas criaturas resolveram
fazer-me uma visita domingueira
Saturnino soltou so carro, todo de branco, paletó e gravata, sobrecarregado com
uns pacotes que, desembrulhado, resultaram em um “tira-gosto” para bebidas.
Cascudo também de paletó e gravata trazia, bem agarrado pela aselha, um botijão
do famoso e milagroso vinho S.Julião. Renato, o único em traje esporte, apesar
de paulista, conduzia umas garrafas de cerveja. Os três bem ou mal
intencionados, entraram de casa a dentro sorridentes e pilheriantes:
- Os
Inocentes atacam de manhãzinha, disse Saturnino, enquanto Cascudo acendia o
enorme charuto de sua preferência – o Danemann. Cada um repetiu a senha do
clube: Rei-Vassalo. Quem não gostou da brincadeira foi minha mulher que tinha
horror a “cachaceiros”, conforme classificou o trio inocente. Sentaram-se os
três bem aboletados, ao gosto de Saturnino, e os deixei a vontade, enquanto
confabulava com minha esposa, a qual, a esta altura, estava possessa de raiva e
antipatia pelos ilustres visitantes.
Minha
esposa, até então, jamais vira Renato Gouveia e desconhecia Câmara Cascudo. Por
outro lado, Cascudo, na época, além de sua grande contribuição a História do
Rio Grande Do Norte e seus estudos de Folclore, fora de casa, começava a
projeta a sua “enorme sombra” no Canto
de Muro, ele mesmo brincando com aquela bicharada toda que se movimenta no
romance. Os originais desse livro foram enviados ao mestre Sartunino e lá, no
seu Curso 91. Onde eu lecionava latin. Mas isso é assunto para a biografia do Professor
Saturnino.
Minha mulher
ignorava todos esses pormenores literários e não estava interessada em fama de
ninguém. Bastava já a incipiente “fama” de seu jovem marido – “a de se
acompanhar com esses cachaceiros”. Portanto, os três não passavam de importunos
e inoportunos.
Ela os
considerava intrusos. Não houve, nesse mundo, quem a convencesse de que eles
eram inocentes. Para ela eles eram realmente instrujões. E quem ficou no canto
do muro fui eu. Pacientemente voltei ao encontro do grupo. Saturnino tirava o
paletó e Cascudo mastigava o charuto já pela metade.
- Vamos
começar os trabalhos, gritou Renato com seu sotaque paulista. Abriu-se o vinho,
arrumei as taças na mesa, Cascudo “debulhou” um peixe a haja “água” a escorrer
pela garganta. Em pouco tempo secou um dos botijões de vinho. Mas eles traziam
outro de reserva, o espirituoso patrono do Clube, o já conhecido São Julião.
Acabou-se o tira-gosto. Pedi a minha mulher para preparar carne, o que ela fez
muito a contra-gosto, porque não perdoava os bebedores. A manhã se esgotou no
calor do vinho. Na cozinha, um pouco distanciada, minha mulher, tristemente se
maldizia e praguejava contra mim e os inocentes. Saturnino ouviu, por acaso,
alguns lamentos e me perguntou o que se passava. Respondi que ela estava muito
satisfeita com a nobre visita. Saturnino chamou-a, pediu umas laranjas e lhe
disse:
- Minha
senhora, estou muito alegre pela sua compreensão. A senhora deve orgulhar-se
muito do seu marido, mas deve se orgulhar mais ainda de ter recebido, em sua
casa, a visita do maior historiador do Rio Grande do Norte, o Dr. Luiz da
Câmara Cascudo. Luiz pegarreou engrandecido e virou o copo. Minha esposa riu-se
com aquele riso sardônico que demonstra desdém; furor arma ministrat; e isso
porque não podia mordê-lo na venta. E travou-se o maior dilema na minha vida de
casado, até hoje. É que minha mulher me chamava lá dentro e, enraivecida,
inconformada, esbravejando, repetia-me usando as suas armas a maneira de
Vírgilio:
- Eu vu me
orgulhar desses cachaceiros safados, que além de atrapalharem o nosso domingo,
ainda exigem que lhe faça comida! Saturnino percebeu em alguns momentos o
resmungo, mas já bem animado pelos favores de S.Julião, não penetrava no
diálogo e me perguntava:
- A senhora
está mesmo satisfeita?
-
Satisfeitíssima e, sobretudo, orgulhosa de ter, em nossa casa, o maior
historiador do século, respondia-lhe eu. Mas o drama continuava. Eu entrava e
saía, entre a dor e o riso simulado. Furor arma ministrat – é assim que
Vírgilio descreve, no I Liv. da Eneida, a rebelião de uma cidade onde as pedras
eram jogadas de todos os lados. Iracunda, minha mulher atacou, sem pedradas,
apenas por um lado sponte sua:
- Quando é
que esses três porcos imundos vão sair de nossa casa? Será que vão ficar pra
dormir, também! Era só o que faltava! Agredia-me minha querida esposa.
E Saturnino
chamava-a educadamente e lhe observava: noto que a senhora está muito
satisfeita: no futuro vai orgulhar-se de nos ter recebido; não por mim, mas
pelo mestre Cascudo. Não esqueça. De fato, não esqueceu; nem eu.
Depois de
comerem toda a carne que me restava e chuparem todas as laranjas de reserva,
finalmente, lá para as cinco da tarde é que os avinhados inocentes resolveram
retirar-se. Ainda por azar o carro de
Renato não pegou e todos tiveram que empurrá-lo.
Minha mulher
passou a antipatizar Saturnino. Entretanto, com o correr do tempo, as suas
visitas constantes, os confeitos e as lembrancinhas que ele trazia para os meus
filhos, minha esposa já o adorava e passou a das suas palestras, suas anedotas
de bom gosto, o que se repetia sempre aos domingos. Anos depois contei tudo
isso ao velho Saturnino, repetindo-o diante de minha esposa; ele “bolava” de
rir. Assim eram os Inocentes.
E minha
mulher, a dona Gizelda, assimilou o espírito do Clube e familiarizou-se também
com a sua filosofia: - Inocentes das maldades alheias. Como o tempo voa e a
vida encurta!
A Última
Noite com Cascudo
Ora, a
última noite! Sempre faz sentido a primeira noite. Bem, mas isso é quando se
perde a inocência... Purus gramaticus, Purus asinus – grande gramático, asno
perfeito, lê-se nesse aforismo latino. Sejamos Purus sem retórica. Inilla nocte
dixit Cascudos inocentibus nobis: Venit hora, et nunc est. Chegou a hora da
recreação, aquilo que os ingleses chamam de refreshment e os americanos entendem
por happy hour. É claro que esses rasgos de latinidade ou esses arrufos de
anglicanismo partiam de mim.
E realmente
chegou o momento agradável, naquela inesquecível noite, para a reafirmação de
nossos votos de inocência. Cascudo trouxe as medalhas, espalhou-as sobre a mesa
e logo em seguida nos condecorou. Colocando a comenda do Vaticano no pescoço de
Diógenes da Cunha Lima fez a seguinte observação: rei de todos os Vassalos;
Vassalo de todos os reis. Rei-Vassalo, como já o disse, era a senha do Clube.
Os folguedos continuaram, in illa nocte.
As comendas
foram distribuídas criteriosamente e cada um dé nós elevou-se ao grau de
comendador momentâneo, uma honraria tão efêmera e tão fugaz, como fugaz é a
noite. Por coincidência do momento, naquela semana o Papa Paulo VI visitava a
Palestina e a energia de Paulo Afonso chegava a Macaíba iluminando ruas e
becos. Enquanto Sua Santidade era recebido pelo rei da Jordânia, sua majestade,
o Quilowatt, era festejado no berço de Auta de Souza. Duas extraordinárias expressões
de progresso, lembrou o presidente Gouveia: o progresso espiritual e a luz que
ilumina todo homem que nasce nesse mundo. Houve risos, palmas e aplausos.
Como era
paulista e bairrista, Renato elogiou Santos e fez pouco caso de Santos Reis, o
bairro humilde de minha residência. Por fim, ligou a Via Anchieta a Via Sacra
porque considerava são Paulo superior ao Vaticano.
Na euforia
desse entertainment, dir-se-ia que nós estivéssemos na Via Láctea a identificar
estrelas. Saturnino, homem inteligente e bom, além da bondade, sempre muito bem
humorado, andava com os bolsos cheios de amuletos sugestivos para distribuí-los
com os amigos no momento azado, segundo as previsões do horóscopo. Então, o
grande mestre, vermelho e conde corado com o mérito de Tamandaré, aproveitou um
intervalo para agraciar os Inocentes com a Orelha do Almirante, uma redoma
áurea, bem fornida, com a sigla CIAT nela gravada. CIAT era a escola da marinha
onde ele ensinava português. Às vezes, trazia na algibeira um canivete
miraculoso provido de 7 lâminas, munido de saca-rolha, abridor de cerveja e
outros dispositivos para abrir a lata de sardinha que servia de tira-gosto.
Eram as sete maravilhas do bolso, repetia ele, pilheriando. No momento,
Saturnino distribuiu o canivete e a redoma aos presentes. Como amuleto, nos
livrava dos 7 pecados capitais. Professor Saturnino sempre foi um dos melhores
e mais divertidos figurantes do nosso Clube. Sem ele e sem Cascudo, o Clube
perdia sua natural e original animação. In illa nocte vivemos momentos
agradabilíssimos. Demos uma prega no tempo, bem ao gosto de José Saturnino.
Cerzimos a casa da amizade, restabelecendo, na linha imaginária, a confiança
perdida, segundo as insinuações de Ascendino Almeida e Severino Nunes.
Ascendino era dentista e estava sempre extraindo do tempo às raízes do passado.
Severino Nunes, como bom protético, costumava mostrar os alvéolos a Ascendino
para lhe lembrar “onde as Raízes estão engastadas”. Gostava de repetir uma
frase minha: - deixai vir a mim os banguelinhos – título de um artigo que lhe
dediquei no Jornal A Ordem.
A tertúlia
se prolongava na euforia do milagroso e espirituoso S.Juilão. Requintamos o
estilo Tertuliano enriquecido pelo expletivo da camaradagem mas sem nos
preocuparmos de fazer ablativo de viagem, na concepção vernacular de Arnaldo
Arsênio de Azevedo e Eulício Farias, ambos excelentes professores da língua
pátria. Diógenes, como bom advogado, aludiu às cláusulas contratuais, numa
linguagem figurativa que expressava tropologicamente o nosso compromisso moral
para que não perdêssemos a Inocência.
E foi esse
grupo mencionado, inteligente pela própria natureza, que participou dessa
inesquecível reunião. Cascudo, dias depois, concedia entrevista a revista
Manchete e, vagamente, referiu-se ao clube dos Inocentes, considerando-o,
talvez, uma bela página do folclore. Bem que o grande folclorista amigo poderia
ter fornecido ao Pedro Bloch uma reportagem bem mais sólida, nunca ter
comparado os Inocentes de sua predileção a um “grupo de assaltantes peraltas”,
o que dava a entender que éramos um bando de rapazinhos itinerantes em noite de
Halloween estadunidense.
Os Inocentes
não atacam, vivem. Embora o nosso ritual simbólico permita associar o culto de
S. Julião a liturgia de Grambrinus, isso não significa que sejamos peraltas ou
teólogos. Há mais sabedoria entre os Inocentes do que mesmo pode imaginar a tua
vã filosofia, se é que leste alguma página de Shakespeare. E a noite corria até
que veio a fresca madrugada e logo as albores da manhã. Noctuavolat era como os
atenienses se referiam a coruja, porque essa ave consagrada a Minerva era de
bom agouro. Para nós, esse presságio era sombrio e tem afetado muito o
magistério: realmente, não pode ser bem sucedida uma classe que tem uma coruja
como símbolo. Para os Inocentes, nessas ocasiões festivas, em que aparecia a
aurora, o que encantava mesmo era o canto dos outros pássaros. E o que resta de
tudo isso: uma saudade do que aconteceu! Uma recordação nostálgica dos que
morreram, a venit hora et nunc est. Ah! Se todas outras agremiações ou
sodalícios pudessem se comportar pela filosofia no nosso Clube: inocentes das
maldades alheias... E nunca mais aquela noite se repetiu. Nulla nox est.
Um Pouco da
Formação dos Clubs
A palavra club, no sentido de associação, nos
veio do inglês. Mesmo naquele idioma, sua origem etimológica é duvidosa. No
inglês medieval, usava-se o verbo to club com ideia de aglomerar, amontoar,
reunir. Talvez venha daí o sentido de reunião ou aglomerado humano. Na França,
club teve, inicialmente, duas aplicações: política e amistosa – Le Club dês
Jacobins, Le Club Littéraire ou un associacition d’amis. Os franceses, que nos
emprestaram o galicismo e sempre se opuseram a invasão de termos estrangeiros
em seu idioma, não se livraram desse anglicismo associativo.
Em língua
inglesa, por ironia linguística, a primeira vez que se menciona a formação do
club é num poema de Thomas Hoccleve intitulado La Male Régle (1406). Na parte
em que o poeta se refere ao club, inicia a narrativa com outra introdução em
francês: Court de Bone Companie. Hoccleve considerava-se aluno de Chaucer e
adorava altografa os seus poemas tanto em francês quanto em latim. Uma de suas
mais longas e enfadonhas produções românticas recai sobre The Regimento f
Princes ou De Regimine Pricipum, uma introdução que também não era lá muito
original. De qualquer modo, Hoccleve, em La Male Régle, demonstra bom
conhecimento da sociedade londrina do seu tempo.
Este
primeiro club descrito no poema de Heccleve floresceu no reinado de Henrique
IV, espécie de club dos glutões, que só reuniam para saborear um bom jantar. Essas
associações londrinas iniciais estavam sempre ligadas a pratos, copos e
garrafas. O Bread Street Club reunia-se as sextas-feiras na Taberna da Sereia,
um famoso botequim no centro de Londres. Em 1616, ano da morte de Shakespeare. O
poeta e dramaturgo Ben Jonson fundou o Club Apollo, cujo primeiro encontro
ocorreu na Taberna do Diabo, ao lado do Bar do Templo – Templer Bar.
Jonson é
conhecido pelo seu temperamento irrequieto ou irônico e pelas sátiras
levantadas a sociedade londrina. Somente no meado do século XVII é que o club,
na Inglaterra, chegou ao seu apogeu e a associação confrontouse com a sadalitas
dos romanos: camaradagem, confraria, círculo de reuniões ou sodalício.
Por este
tempo, a palavra tinha esta grafia – clubbe. John Aubrey, o grande antiquário e
também amante de epígrafes em latim, depois de escrever o seu Athenae
Oxonienses ou Vidas de Homens Eminentes, a maneira de Plutarco, assim discorre:
“we use the Word clubbe for sodality in a tavern”. Esta solidariedade do bar
também foi esposada por Samuel Pepys que se refere a Taberna dos Bosques –
Woods’Tavern, instalada na rua Pall
Mall, onde ele e seus amigos frequentavam “for clubbing”.
E assim, em
Londres, desenvolveu-se o club. Entretanto, ao que me parece, no final do
século XIX, esses clubs ingleses gozavam de pouca ou nenhuma reputação.
O
romancionista irlandês, George Moore (1852-1933), na sua autobiografia – The
confession of a young Man – escreve lá pela altura do cap. 9 “nenhum lugar da
Inglaterra, aonde alguém possa ir, considera-se respeitável. Esta é a gênesis
do club fora da respeitabilidade doméstica.” Não deixa de haver aí humor
nostálgico e irreverente muitos aos gostos de irlandeses e escoceses desde o
jovem poeta e camponês John Burns até o mais recente e calculado Bernard Shaw.
Em literatura inglesa, eles sempre foram os mestres da sátira. É uma
potencialidade literária característica dos nórdicos. Prevalece a sinceridade
mordaz mas sem grandes ofensas.
Deixemos de
lado a gênesis do club inglês e sigamos ligeiramente o curto êxodo de nossos
Inocentes. O clube dos Inocentes, em sua formação, aglomeração e atuação.
Jamais se baseou por essas diretrizes anglos-saxônicas e nunca levou em
consideração essas avaliações ou essas nebulosas tradições. Creio mesmo que do
mais rude ao mais culto, todos ignoravam esse passado tabernesco predominante
na sociedade londrina. Nem eu mesmo me preocupei com o assunto.
Nossas
tertúlias eram carentes de alegria e não de alquemia. De que nos valeriam tais
segredos históricos ou tais revelações extemporâneas? Já nos bastava a
insinuação daquela carta apócrifa atribuída a Aristóteles – secreta secretorum
– um tedioso sermão sobre vícios e virtudes de que se utilizou Hoccleve no seu
tratado sobre De Regimine Principum. Nós sempre detestamos as imitações e, por
isso, o Clube dos Inocentes manteve-se independentemente original. Nosso clube
não teve vícios, nem segredos e só conservou as virtudes naturais (inatas) que
enriquecem as almas dos simples.
Ignorantemente,
nos aproximamos mais dos franceses do que mesmo dos ingleses: um association de
vrais amis.
Sempre nos
distanciamos de teólogos e filósofos.
O Princípio
de Tolerância
Como já
insinuei, os membros do nosso Clube seguiam religiões diversas, cada um
acomodado a sua própria crença. Dois eram católicos praticas. Dois outros eram
espíritas Kadercistas. O espiritismo não exige práticas, pois a metempsicose é
um estado da alma em transmigrações corpóreas: uma alma em trãnsito, espécie de
condomínio espiritual. Tudo se materializa no transitório inquilinato. A essa
consolação ensinava Plotino que era simples metensomatose – transformação de um
corpo noutro.
Ora,
Saturnino e Feliciano simpatizavam com as práticas esotéricas e por isso se identificavam
com os Rosa-Cruzes. Procuravam a pedra filosofal pela química da idade Média.
Na prática: sonhavam com a alquimia como quem sonha com tesouro perdido ou
encantado. O resto, cabalístico ou teológico.
Se os anjos
tem ou não tem sexo, isso ficava por conta da destruição de Sodoma e a critério
de Lot. Sabe-se, pela leitura da Bíblia, que foram grandes as dificuldades
enfrentadas pelo sobrinho de Abraão por causa de dois deles, exatamente pela
dibiedade de sexos. Vamos deixar essa androgenia a indagação científica. Essas
ambivalências nunca nos preocuparam.
Conservamos
sempre o princípio da tolerância, o respeito as convicções alheias e o direito
de pensar livre e conscientemente. Cascudo, por exemplo, mesmo sendo
mestre-maçon, foi indulgenciado com alta comenda do Vaticano. “Como é bom e
agradável viverem unidos os irmãos”, segundo nos lembra a linguagem do
salmista. No fundo, uma você, uno ore, todos nós acreditávamos no Deus dos
Exércitos, mesmo porque, ainda hoje, de Jeremias a São Paulo, são os generais
que contemplam as estrelas, mesmo que encolham os ombros.
Uma noite,
lembro-me bem, entre “dois dedos de prosa”, inter pocula, reunidos Cascudo,
Saturnino e eu, com a presença do presidente Gouveia, arrisquei-me a esse
arbítrio: - Se queres aproximar-te de Deus, afasta-te de filósofos e teólogos.
Observação de Cascudo: Satu... que padre a Igreja perdeu... emendou Saturnino:
nós é que lucramos... e levantou um brinde ao passado. A esse modelo de festim
chamavam os romanos orationem recitare inter pocula – discursar no ato de
beber. Nessa retórica de botequim, o brasileiro é pródigo.
Majestati
Naturae Par Ingenium
Assim foi o
Clube dos Inocentes, aquela agremiação desprovida de maldade, a qual amoldou-se
aquela satisfação tranquila a que Demócrito chamou de eutimia. Viveu os seus
momentos de agradável euforia num ambiente aprazivelmente lúdico. Ludere, non
laedere – Brincar, sem ofender. Sodalitas hodie nulla est – já não existe mais
a encantadora gremiação, a não ser na memória dos seus sobreviventes. Já
tivemos vários Clubs, em Natal, sendo o primeiro, ao que me parece, aquele
chamado Velo Club Natalense fundado em 1899 e extinto no ano seguinte. Era um Club
recreativo e se ocupava principalmente de corridas de bicicleta. Velo aí não é
a lã das ovelhas, mas o primeiro impulso, a velo... cidade lenta. Compreende-se
que o veículo inventado e pedalado pelo escocês Kirkpatrick Macmillan, em 1839,
chegara, aqui em Natal, 60 anos depois para entra no Velo Club. Não deixa de
ser um fato histórico.
O Clube dos
Inocentes prevalecerá, também, como um desses fatos históricos igual a tantos
outros esquecidos e só relembrados no confronto das páginas amarelas da própria
história. Historia quoquo modo script delectat – a história seja qual o método
pelo qual for escrita, sempre agrada – repetia Plínio, o Moço. A guisa de
ilustração e conclusão, relembrarei alguns desses fatos registrados nos anais
de nossas história citadina, acontecimentos esquecidos e tão importantes quanto
a permanência do club dos Inocentes. Vejamo-los.
1- Quem se recorda mais da primeira
visita pastoral feita a Natal pelo bispo de Olinda, dom José Pereira da Silva
Barros, conde de Santo Agostinho, dia 08 de agosto de 1882?
2- A visita de engenheiro hidráulico, o
inglês Jonh Hawshaw, mandado pelo Imperador, em setembro de 1827, com a
incumbência de inspecionar a barra do Potengi. A inspeção de nada valeu, pois,
em 1901, vindo o coronel e cônsul americano P. Pryne em visita oficial a nossa
cidade, o navio em que viajava, o Atlanta, não pode deslizar pelas águas mansas
do estuário porque a barra não lhe oferecia condições de calado. Sua Excia.
Obrigou-se a embarcar e desembarcar numa lancha de pequena sabotagem.
3- Quem se recorda daquele avião da
Latécoere que aterrisou na praia da Redinha entre pânico, espanto e admiração
dos pescadores? Dia 18 de Julho de 1927. Nesse mesmo ano, pousava, normalmente,
em Parnamirim, sem grande espanto, o primeiro avião – o Briguet-1685.
Procedente do Senegal.
4- Em 1911, foi inaugurado o serviço de
bondes elétricos, que tanto e tão bons serviços prestaram aos transportes de
nossa querida cidade. Antes (1908) já havia os bondes puxados a burros. Esses
burros-transportes foram os primeiros animais a circular pelas ruas de Natal
prestando seus serviços a população, precursores dos cavalos a vapor.
5- E por último, lembrarei o casamento
do século. No dia 09 de julho 1890, celebrou-se, aqui em Natal, o primeiro casamento civil, oficiante: o Juiz
Ferreira Chaves. Nubentes: Philipe Pereira do Lago e Marianna Shimphorosa de
Castro Barbosa. Testemunhas: Dr. Joaquim Manoel da Silva Júnior, então
governador do Estado, e João Avelino Pereira de Vasconcelos. Lago e Shimphorosa
foram recepcionados por Silva Júnior.
Factum est illud; fieri non potest(Plauto), et facta potenciora sunt
verbis (afor.jurid.) o fato é este e não se pode evitar que seja (pois) os
fatos tem mais força que as palavras.
Nossos sentimentos eram nobres e bem acomodados às circunstâncias do
tempo. Evitávamos qualquer pedantismo literário ou exibição de comprometida
erudição ou bizantismo. Tanto nos afastamos do Vale de Ouro, o carneiro da
fábula, o qual possuía a faculdade de falar, quanto nos distanciamos do
pedalado Velo Club.
Nossa recreação era bem outra, longe do helenismo heroico de Jasão, o
argonauta que envenenou o dragão e conquistou o Velo. Tampouco levamos em consideração
a pedalagem do escocês Macmillan, inventor da bicicleta, que rodou o Velo Club
Natalense, naquele ano de 1899. Nosso vellus era bem outro; a recreação
descontraída, sem preucupação com a velocidade do tempo. Nada de heróis e
deuses; e muito menos de inventores.
Sem grande esforço de memória ou profundas reflexões filosóficas, nos
adptamos tacitamente ao conselho de Marco Aurélio, em suas Meditações, a de
vivermos cada minuto da vida como se fora o último. Era o que constantemente
nos lembrava Saturnino. Venit hora, et nunc est. E se predominou alguma
filosofia em nosso Inocente Club, essa veio indiretamente pela via aforística,
a sabedoria popular, sem implicação de abusivas premissas. Vale lembrar a
observação de Pe. Júlio Maria: todo filósofo tem a sua ignorância e todo
ingnorante tem a sua filosofia. Que queres mais?
Documentando aqueles citadinos fatos, no que retro ficou dito, o
historiador e Inocente Câmara Cascudo usou a expressão latina – De rebus
pluribus – sobre muitas coisas. Por ter sido Luiz da Câmara Cascudo uma das
vigas mestras do clube dos Inocentes, incluo in rebus pluribus a nossa
sodalitas innocentium, Inocente agremiação a que ele pertenceu e tanto amou ao
lado do seu grande amigo e admirador, José Saturnino, e ao lado de todos nós.
Sodalitas innocentium in facto nulla
est, sed vere in historia manebit.
Realmente, o sodalício hoje ja não existe, mas permanecerá ligado a
histórica lúdica da Cidade de Natal, muito ao gosto de Cascudo. Registrei,
nesse livro, seu nascimento, desenvolvimento e declínio.
Nesse desfecho se enfeixa a frase que Suetônio atribui a Augusto,
preferida no seu leito de morte: acta est fabula – esta representada a peça.
Era assim que terminava o último ato, no teatro romano. Pois assim, também, in
illa nocte, caiu o pano da última cena de nosso inocente convívio, na casa do
historiador e grande mestre, Luiz da Câmara Cascudo.
Concluindo, pois, esses confrontos passageiros, dentro dessas
circustancias históricas, ou mesmo circustâncias temporais, lembro o verso de
Ovídio – tempus edax, homo edacior – o tempo é destruidor, mas o homem é ainda
mais destruidor. Complementou esse verso a vibrante retórica de Cícero: tempori
serviendum est – é preciso que nos acomodemos ao tempo. Sic transit innocentia
nostra – e assim passou a nossa inocência, nossa inofensiva agremiação de
grandes valores humanos.
Desse modo, como escreveu Lucrécio, ocultam-se os segredos da vida –
vitae postcenia celant. E aquela incrição latina aberta numa estátua de Buffon
com a ideia de mensurar o gênio e a grandeza do naturalista francês, eu aqui a
transfiro com a mesma igualdade para os nossos inocentes falecidos: majestati
naturae par ingenium – o Gênio é igual a magestade da natureza.
Et nulla illa nox est.
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Extraído e revisado da 1ª Edição de "Saturnino, Cascudo e o CLUBE DOS INOCENTES". Porto Alegre - RS - 1992, de José Melquíades de Macedo.
sábado, 12 de outubro de 2013
O Clube dos Inocentes (VIII).
Luiz da Câmara Cascudo
- Foto do Google.
O Vinho São
Julião
Saturnino
apreciava muito os bons vinhos. Gostosamente, enchia a boca a recordar os
vinhos italianos ou do porto, na sua predileção: Casal Garcia, Lacrima Christi,
Dom José. E sempre que alguém lhe oferecia um cálice de um desses vinhos
repetia. Em espanhol, que venga. Ao
saboreá-lo, exclama em francês, pronunciando a corriqueira frase: comme il faut; e logo traduzida ao seu
gosto – como é preciso degustá-lo. Charmeur!... Luiz de Barros e Roberto Freire
lhe proporcionavam momentos alegres quando o convidavam a deleitar-se com esses
capitosos vinhos, nem sempre ao alcance de seu bolso. Não lhe ajudava tanto
comprá-los o minguado salário de professor.
Com o
advento do Clube dos Inocentes estava muito em moda o vinho fabricado no Brasil
e rotulando com São Julião. Saturnino gostava dele tinto. Sempre que podia,
comprava-o e bebia em companhia de amigos. Onde quer que se reunissem os
Inocentes, lá estava presente o saboroso São Julião. Às vezes, o S.Julião era
substituído pelo Cabeça de Touro: fazia-nos lembra de São Firmino.
Lembrei de
se fazer de São Julião, simbolicamente, o padroeiro do Clube. Finalmente, nas
comunidades católicas, todos os sodalícos têm o seu santo protetor. Santo Antão
é padroeiro dos animais domésticos, acumulando essas prerrogativas sagradas com
os coveiros, açougueiros e cesteiros, segundo se lê no Dicionário prático do
Mons. Castro Pinto. Os escoteiros têm S.Jorge. Os fabricantes de cerveja
merecem três: Santo Agostinho, São Lucas e S. Nicolau de Mira. Os vendedores de
vinho valem-se de Santo Amando. Até os leitores têm Santa Brígida, embora eles
ignorem essa proteção divina e por isso ponham água no leite. Deveriam ser
presos. Nesse caso estariam bem prestigiados porque teriam como protetor São
Pedro em Cadeias.
Ora, diante
de uma devoção tão santa, catolicamente instruída para o bem das almas, por que
não poderíamos, nós, os Inocentes, ter o nosso santo protetor? E ficou certo,
Inocentemente, que São Julião seria o nosso padroeiro. Então lembrei a
Saturnino aquela segunda Novela do Decameron, em que Boccaccio faz Filóstrato
conta diante das sete mulheres venturosas fábulas na qual São Juliano obra o
divino milagre da sorte. Vale a pena resumi-lo para que se experimente a
eficácia da fé.
Na bela
fábula bocaciana, Rinaldo d’Assi era um comerciante próspero. Não era católico,
mas também não era ateu. Esquecera-se de todas as orações aprendidas na
infância. Contudo, conservou-se devoto de São Juliano porque viajava muito e
esse santo, na Idade Média, era padroeiro dos viajantes. A São Juliano dedicava
todo santo dia um padre-nosso, única oração que ainda alimentava no subconsciente.
Dificilmente o homem se livra de alguns hábitos religiosos adquiridos na infância.
O que fica na memória, a tendência é repeti-lo. São Juliano. Convém explicar,
quando ainda mortal e humano, tornou-se perverso e desumano: matou o pai e a
mãe, mas isso aconteceu por engano, pelo mesmo motivo de Édipo, isto é, sem o
saber. Ao cair na realidade, arrependeu-se e não guardou nem um complexo de
culpa, como o infeliz da fábula grega; graças a Deus. A coisa mais bela desse
mundo é um pecado arrependido. Está provado que pecado dessa natureza levam o
pecado ao céu pela força mesmo do arrependimento. Deus assim o consente como
prova, pelo mesmo motivo que permitiu em outros evos do infinito longínquo, a
rebelião dos anjos para que existisse o inferno destinado a castigar aqueles
que não se arrependem dos seus erros. E a nossa Santa Igreja tem São Pedro como
seu mais legítimo representante, a quem, aqui na terra, lhe foi dada a fé
inabalável de divino notário, ele que negara o Mestre três vezes. Além da fé do
divino oficio, recebeu as chaves que abrem as portas do céu. E as portas do
céu. E as portas do céu se abriram para São Juliano. Por isso, Rinaldo lhe era
devoto. Em uma de suas viagens por estradas frequentadas por bandidos e
ladrões, Rinaldo foi assaltado e abandonado quase despido, numa encruzilhada.
Era noite, noite escura e fria. Em Castel Guglielmo, morava um viúva rica,
jovem a bela, já agora amante do marquês Asso de Ferreira. Mas Rinaldo não
sabia disso. Castigo pelo frio, deparou-se com uma casa que projetava o seu
teto para fora, tomando-a como abrigo. Era exatamente a casa da jovem viúva,
amante do marquês. Reinaldo não esqueceu de rezar o padre-nosso a São Juliano.
E quis o santo protetor que o marquês não viesse naquela noite conforme
prometera. Tem a fê um poder extraordinário: remova montanhas e afasta
marqueses. Juntos ao alpendre onde se abrigava o infeliz e penitente viajante,
pelo lado de dentro, ficava o banheiro e a bela viúva entrou para banhar-se. Durante
o banho ouviu, assustada, alguns gemidos vindo de fora. Então ordenou a sua aia
que verificasse o que acontecia. A doméstica saiu e descobriu o pobre Rinaldo
encolhido de frio a se maldizer da sorte. De volta, informou tratar-se de
pessoa de boa aparência e com ares de fidalguia, embora acabrunhado na sua
humilhação. A viúva, que era muito humana, mandou-o entrar. Viu-o e apiedou-se
dele com os olhos concupiscentes. Deu-lhes as roupas do falecido marido, que
por sinal lhe sentaram adequadamente, e mandou que se banhasse com sais
aromáticos, na sua própria banheira. E depois de tudo isso se deram muito bem
como já se conhecessem há meses. Não precisa insinuar o que aconteceu. Os dois
foram para a cama e saciaram os desejos nos velados segredos da alcova, ambos
muito bem amparados pela proteção do seu anjo da guarda, no caso, São Juliano.
Nunca as orações de um devoto foram tão bem atendidas pelo seu patrono. E com
isso fica bem assegurada a eficácia da fé (instrumento de persuasão) associada à
doutrina do provérbio português: o bocado não é para quem o faz , mas para quem
o logra.
Relatei esse belo conto a Saturnino, com as
minhas observações e deduções. Ele gostou e me pediu emprestado o Decameron. E
por essas e outras, São Julião entrou, engarrafado, para, com o seu espírito,
animar o Clube dos Inocentes, tornando-se, simbolicamente, seu padroeiro. (Págs. 28/31) - Saturnino, Cascudo e o Clube dos Inocentes - 1ª edição - Porto Alegre - 1992.
José Melquíades
domingo, 29 de setembro de 2013
O Clube dos Inocentes (VII)
O Simbolismo
do Galo e sua Entrada no Clube
O galo ocupa
razoável espaço na história humana e no poleiro universal. Pindaro o inclui em
uma de suas Odes, definindo-o como símbolo de coragem. Sêneca, na morte de Cláudio,
num de palavras entre gallus (galo) e Gallus (gaulês), afirmou que ambos são de
grande importância no seu galinheiro – gallus in sterquilinio suo plurimum
potest. Participou da morte de Sócrates, o qual, segundo Platão, antes de tomar
a cicuta, avisou ao seu discípulo Crito que devia um galo e Asclépio e que ele,
Crito, teria que apagar a promessa logo após a sua morte.
O galo era
oferta espontãnea que os doentes recuperados levavam, como pagamento, a
Asclépio, o deus da medicina: espécie de ex-voto. Na Bíblia, ele empoleirou-se
no livro dos Provérbios, dividindo sua altivez com o leão. (Prov. 30,31).
Citado nos Evangelhos de Mateus e Marcos, recorrendo ao seu canto, Jesus
predisse a negação de Pedro, horas antes de sua prisão, no Getsêmani.
-Antes que o
galo cante me negarás três vezes (Mt.26,34). Os romanos dividiam o tempo em
quatro partes ou vigílias e a terceira chamavam de gallicinius
(galicínio-meia-noite), a hora do galo. Não custou muito e entrou na missa de
meia noite, na vigília do Natal – missa do galo. Na Idade Média, subiu as
torres das igrejas simbolizando a vigilância. Em inglês, chama-se weathercock a
ventoinha em forma de galo para indicar a direção do vento; e, por analogia,
diz-se das pessoas que mudam rapidamente de idéias e não têm consistência em
seus pensamentos. Passou a relógio, na torre das igrejas – galarim- marcador de
ventos.
Na doutrina
esotérica, entra como emblema de vigilância indicando ao iniciado o caminho
iluminado. Na Maçonaria, colocado junto a ampulheta, avisa que o tempo não pára
e anuncia a ressurreição, a vida do verdadeiro iluminador: - eternidade de
espírito. Ainda em inglês, há uma expressão
proverbial chamada cock-o-hopp, usada no sentido de bebedeira; por extensão,
descontraimento ou despreocupação. Cock, em inglês, é uma palavra usada para o
galo. To be cock-o-hoop significa secar o barril de cerveja e ficar em “estado
de graça”; alegre, descontraído, no estado etíco. Obedecendo a essa tradição
galinácea, resolvemos introduzi-lo no Clube, mas simbolicamente.
O clube, o
Treze e o galo
No tempo que
o Bar Cisne atuava na Rua João Pessoa, no andar térreo do Edificio Amaro
Mesquita, Múcio Miranda, seu dono, costumava, na sexta-feira a noite ou no
sábado pela manhã, as vezes a tarde, colocar algumas cadeiras na calçadas para
deleite dos frequentadores. Aquele Bar Cisne, localizado bem no coração do Grande
Ponto, concentração de políticos, advogados, intelectuais a desocupados,
celebrizou-se por três coisas: a incorrigível fedentina do seu sanitário, o
fanatismo getulista do garçon, José Américo (agravado pelo peleguismo da sua jangolatria)
e por um joguinho de bozó chamado “melé na mesa”, pelo qual, o prof. William
Aires tornou-se o campeão dos perdedores.
Numa dessas
belas tardes estivais, reunidos ali numa cervejada Cascudo, Saturnino,
Ascendino, Severino Nunes e eu, depois de simbolicamente ouvirmos “o canto do
galo”, que ainda ressoava nas páginas da história, discutimos informalmente a
possibilidade de mandarmos cunhar uma medalha de ouro com o número 13 encimado
por um galo e que essa medalha servisse de insígnia, o Clube contava apenas com
13 associados e o emblema se ajustava bem a tradição galinácea a medicina, a
vigilância e a roleta ou ao jogo de sorte. Treze era o número ideal; galo, o
símbolo adequado.
Todavia, a
idéia morreu no nascedouro, permaneceu na sugestão e não passou da calçada do
Bar Cisne. O Clube aumentou o número, pois sempre que um morria ou outro se
mudava, podíamos colocar um terceiro em seu lugar, sem contudo o substituir.
Inocente era rei-vassalo enquanto “bem servisse”. E por esse tempo só dois
haviam morrido: Milton Cavalcante e Djalma Santos.
O número 13
também possui a riqueza de sua representação na formação dos algarismos. Treze
pessoas sentaram-se para celebrar a última ceia: Jesus e os 12 apóstolos. Em
Londres, havia o Clube dos Treze, um sodalício fundando para combater a
superstição. Uma das curiosidades mais interessantes, sobre o número 13, ocorre
no livro de Brawn, um matemático inglês, o qual, confrontando exaustivamente
calendário e séculos, chegou a conclusão de que, de 4 em 4 séculos, o dia 13
cai, no domingo: 687 vezes. Na segunda : 685. Na terça igualmente 685. Na
quarta: 687. Na quinta: 684. Na sexta: 688 e nos sábado 685.
Como se vê
do paciente calculista britânico, o número 13 ocorre mais vezes na sexta-feira,
o que tem gerado muita superstição. Escreve Melo e Souza, no Folclore da
Matemática, que na antiga Constituição do Estado do Espírito Santo não constava
o artigo 13; os legisladores capixabas, supersticiosamente, suprimiram-no. Também assim já é demais.
De qualquer
modo, o galo e o número 13 bateram asas, voaram do clube dos Inocentes. E o
número fixou-se em 14, depois da morte dos dois primeiros sócios. O
Aleijadinho, no seu “atelier da Renascença”, nas palavras de Mário de Andrade,
fugindo ao número 13, idealizou, na sua maravilhosa imaginação, uma Ceia Larga
com 14 participantes: Jesus, os 12 Apóstolos e um soldado romano que aparece,
como penetra, e participa da eulogia. Nosso ágape contentou-se com os 14
convidados.
Fiquemos por
aqui, ruminando o bocado de saudade dessa memorável agremiação, que nunca mais
se reuniu e permanece em fase de extinção. Seus melhores animadores já partiram
para o Oriente Eterno: Milton, Djalma, Saturnino, Cascudo,João Medeiros, Ascendino.
Em Natal, restam pouquíssimos: Gorgônio Regalado, Severino Nunes, José Leiros,
Reginaldo Medeiros, Eulício Farias, Diógenes da Cunha Lima, Arnaldo Azevedo* e
o autor destas memórias.
Feliciano
mudou-se pra o Sul do País. Renato voltou as suas atividades, no seu estado de São
Paulo: aquele capitão-de-mar-e-guerra
(um dos convidados de Saturnino a participar ativamente de algumas reuniões
nossas nem lhe sei o nome) perdeu-se nas vastidões talássicas - mare
proluit omnia; Frank Walton foi
tomar sua bênção ao Tio Sam – benedicite, e não se sabe se foi abençoado, pois
nunca mais nos deu notícia da benedictio
patrui...ad ostentationem nostram. Vale, aqui, o prazer ou a alegria de
recordar aqueles tempos felizes, na conformidade da narrativa da Eneida: meminisse juvabit...melioribus annis.
Luís da Câmara Cascudo
*Arnaldo,
meu melhor amigo (levei-o para o Clube). Faleceu inesperadamente, no dia
18.09.91, sete meses após ter escrito essa belíssima apresentação a este livro.
domingo, 8 de setembro de 2013
Clube dos Inocentes (VI) - A Iniciação.

Luiz da Câmara Cascudo, à esquerda. Foto do Google. Nota: a foto não se refere a uma "reunião" do clube, mas de um evento "social" regado a cervejas e uísques. Sem data.
Convite e
Iniciação
As
“iniciações”, no começo, limitavam-se a um convite e aquiescência tácita
aceitas pelo grupo. Mais tarde, Cascudo introduziu um “ritual”, na sua casa.
Depois de selecionado o nome do novo integrante, reuníamo-nos em sua biblioteca
para a “cerimônia” de aprovação. Via-se o recipiendário sentado numa cadeira de
palhinha e nesse trono improvisado era coroado com a “mitra” espelhada de um
“galante” do boi-de-reis. O “neófito” segurava um centro também improvisado, às
vezes um cipó de jucá, simbolizando o tirso na mão de Dionísio.
O Clube
tinha a sua senha: rei-vassalo – repetida obrigatoriamente quando nos
encontrávamos. Como toda senha é um sinal convencionado para reconhecimento das
pessoas, a nossa era transmitida e explicada: ao mesmo tempo rei e vassalo,
príncipe e súdito. Esse dualismo de concepções opostas foi idéia de Cascudo
para nos lembrar o nosso princípio de “inocência”, a criança que brinca de rei
e cria seus “castelos no ar”.
Nisso
residia uma parcela do epicurismo tão repetido por Saturnino, aquela parte que
recomenda a humildade; ou não era nada, apenas fruto de nossa “inocente”
imaginação. Nas reuniões em casa de Cascudo, quando a cerveja espumava ou o
vinho fermentava nos copos, era ele mesmo quem, lá para as tantas da fresca
madrugada, tomava a iniciativa de apanhar as suas comendas e as distribuir
entre nós outros, condecorando cada um a seu modo. Assim, pois todos passavam a
comendador nesse ou naquele grau. Saturnino, como o professor da Marinha,
recebia sempre medalhas do Mérito Naval do Almirante Tamandaré. Cada inocente
era agraciado com uma daquelas medalhas penduradas no pescoço. Pela abundância
e riqueza de detalhes no verso e anverso, essa distinção de amizade pendurada
ao peito me dava a impressão da medalha milagrosa pela maneira como estava
momentâneamente honorificado. Saturnino, já um tanto avinhado e avermelhado,
Cascudo costuma repetir: eis o nosso conde... coroado.
Nem
Hipócrates nem Basilides
Cascudo, no
convivio do Clube, era pródigo e expansivo em divertidas improvisações. Às
vezes mandava o recipiendário ajoelhar-se sobre uma almofada, empunhava uma
espada e, numa informal postura de um D’Artagnam quixotesco, bem distanciado do
Visconde de Bragelonne, estendia o gládio sobre a cabeça do “iniciado”,
ordenando-lhe repetir um juramento improvisado, aquilo que propositamente se
jura e não se cumpre. Quem ia lá se lembrar de Apolo, Asclépio ou Esculápios,
deuses e deusas do Olimpo longínquo, conforme Hipócrates impunha aos jovens
médicos de Cós para constrangimentos dos velhos clínicos de cá!
Nessa
postura de espadachim pacifista, Cascudo era fértil em escamotações eloquentes,
dir-se-ia, o abracadabra da magia verbal.Para nós que o admirávamos, toda essa
sua expontaneidade nos parecia um passe de mágica. De uma feita, para
satisfação de todos os Inocentes presente, ele encostou a espada na cabeça do
genuflexo Diógenes da Cunha Lima e logo após o juramento gracioso, sem as
implicações da fórmula mágica usada nos abraxás criados pelo pitagórico Basilides,
improvisou esta inocente mensagem, que valeu por dez pedras preciosas usadas
como amuletos para os 365 dias do ano, pela tradição de Basilides:
_
Diógenes... de hoje por diante... rei de todos os vassalo e vassalo de todos os
reis. Estava terminado o cerimonial improvisado para a aceitação do novo sócio.
E partimos para levantar o brinde à saúde do rei, bem ao gosto do costume da
corte. A largos haustos, bebemos todas a saúde reservala ao príncipe.
Potina,
Fabulino e Locutino
Havia, entre
os romanos, duas divindades protetoras da infância, da meninice, enfim, da
inocência: Fabulino e Potina. Fabulino ensinava a criança a falar
convenientemente. Potina, a beber. O Clube dos Inocentes acatou esse modus
loquenti e esse modus bibendi dos romanos mas, como diziam os mesmos romanos –
bono modo – sem exagero. Falar convenientemente e beber o suficiente para não
perder a inocência. Perguntarão, talvez, - e todos se comportaram assim?
Responderei:
nem todos. Alguns se excediam, mas fora do Clube. Isso porém, não nos tocava,
tampouco nos competia vigiá-los. Fora das vista, longe do pensamento, escreveu
Homero na sua Odisséia, repetido por Marco Aurélio, nas Meditações. Deixemos de
fora os imoderados.
Prevalecia,
também, entre os romanos, o culto ao deus Locutino, uma outra divindade
invocada para orientar a conversa das crianças, o ensino da Ortoepia.
Essainspiração nunca faltou aos integrantes de nosso Clube: confabulação ou boa
conversa. Entretanto, nunca houve uma oportunidade de todos nós 13 nos
sentarmos à mesa para recordar o modus loquendi de Fabulino ou, como ainda
repetiam os latinos – loquela tua manifestum te facit – pela conversação se
conhece o espírito de cada um. Fabulino não nos concedeu essa graça.
Inspirado na
narrativa do Evangelho, Leonardo da Vinci reuniu, no quadro da ceia larga,
Cristo e os Doze Apóstolos. Na Inglaterra, houve, numa determinada época, o
Club dos Treze (Clube of Thirteen) cuja finalidade era combater as
superstições. Pitigrilli, num artigo traduzido para o Diário de Notícias,
afirma que D’Anunzio, no “decorrer do ano 1913”, datava as suas cartas escrevendo
assim: 1912 + 1. Isso é o cúmulo da superstição. Conta-se ainda que o Papa
Gregório Magno costumava oferecer um almoço a 12 pobres. Um dia, reunidos os humildes
convidados para o ágape, apareceu Jesus para participar da refeição. Daí por
diante, o número 13 recuperou-se como número de sorte. Pelo menos no Vaticano.
Nós, os
inocentes, apesar de sermos 13, jamais tivemos a sorte de nos sentarmos todos
juntos para um almoço ou uma ceia. Nenhuma de nós era supersticioso. Até se
cogitou de se criar um emblema para o Clube: um galo de ouro encravado no
número 13, que deveria ser usado na lapela. Discutiu-se a idéia. A proposta foi
aprovada, mas a forma nunca se materializou. O galo é 13 no jogo do bicho.
Talvez nem precisasse dizê-lo.
Assim era o
Clube dos Inocentes. José Saturnino adoeceu em 1974. Ele era a alma do Clube.
De sua enfermidade para cá nunca mais nos agrupamos. Resta-nos, hoje, a saudade
dos que partiram para o mistério das sombras: Milton, Djalma,Cascudo, José
Medeiros, Ascendino e o insubstituível Prof. José Saturnino. As horas de prazer
voam ligeiras, costumava repetir o poeta Bocage.
As Retras de
Licurgo
Como já
mencionei, o Clube não tinha estatuto, dispensava ata, não exigia anotação de
espécia alguma. Licurgo, na reforma administrativa que impôs a Esparta, criou
uma ordenações chamadas retras. Por essa inovação no sistema das leis
espartanas, Licurgo recomendava que nada se escrevesse. O importante eram os
costumes e não a lei escrita. A eficácia da lei estava na boa aplicação
consetundinária: dispensava publicação ou codificação. Pensava Licurgo que essa
Legislação ou essa forma de direito fora ditada pelos deuses. Uma noite,
Cascudo, Saturnino e eu, numa daquelas nossas “espumantes” tertúlias,
discutimos o mérito das retras e ficamos “enebriados”, perdidos nas recordações
da Grécia antiga, revividas na inocência readquirida em nosso Clube. Haja
inspiração!
E novamente
vieram as recomendações: nada de ata ou minúcias de registro escrito.
Entretanto, esse comportamento não proibia que alguém tirasse da conversa algum
proveito e o recuperasse em seu diário ou em algum artigo de jornal. O que se
recomendava era a despreocupação nos movimentos “felizes” de nossas
descontraídas reuniões. Já bastavam as atas mal redigidas, o português
comprometido em solecismo e pontuação inadequada, que constantemente éramos
obrigados a ouvir e ver, enfadonhamente, em certas agremiações lítero-esportivas,
lembrava o Prof. Saturnino. Nosso Clube fora idealizado para recreação, “for
relax” ou, como o mesmo Saturnino repetia, “dar uma prega no tempo” e sermos
inocentes das maldades alheias. Hoc fac et vives, emendava eu com o conselho de
Cristo: fazer isto e viverás. Nada de regras imposta: nenhuma disciplina
comprometedora. Tudo deveria correr livremente ou espontaneamente. Esse direito
ou isenção de normas rígidas nos recomendava a ser livres e de bons costumes.
Apesar de
todos esses descontraimentos, não hesitei em escrever alguns artigos para os
jornais A Ordem e A Tribuna do Norte, além de outras anotações no meu diário
íntimo. Infelizmente, a falta das datas precisas, a precariedade da minha vista
não permitem rebuscar esses arquivos ou revelar, aqui, essas ingênuas
publicações. A própria filosofia do Clube dispensa esse preocupante e estafante
esforço.
Em 1960,
quando regressei dos EE.UU cheguei a fazer um documentário filmando em 8mm
sobre 8 componentes do nosso Clube. Lá está Cascudo bem “novinho”, lépido e com
excelente aidição, posando para minha humilde câmera acendendo e baforando o
seu charuto Danemann, Renato Gouveia, “o presidente pérpetuo enquanto bem
servir”, constrída uma casa na Rua Princesa Isabel e sai dos montões de caliça
e tijolo pela porta de seu Gordini encarnado fumando um cigarro Continental. O
filme ainda está no meu poder como uma recordação viva do que fomos e já não
somos mais: - Arnaldo, Saturnino, Eulício, Zé Leiros, Severino Nunes, Ascendino
e Reginaldo Rocha participam desse documentário.
Mas nunca
esqueci e ainda guardo vivamente na memória o que aconteceu, em casa de
Reinaldo Ferreira, no dia 21.4.1955, um almoço que nos ofereceu esse anfitrião
com o repasto de um enorme peru-ema. Esqueçamos, por enquanto, as retras de
Licurgo.
Em Casa de Reinaldo Ferreira – O Peru-Ema
Para
despreocupação dos Inocentes, quando se reuniam, documentei o seguinte
acontecimento. Certo dia, (precisamente 21.4.55) Reinaldo Ferreira da Costa
ofereceu-nos um almoço em sua residência, na Rua São Sebastião, Bairro das
Rocas. Ali foi imolado um imenso peru que mais se assemelhava a um daqueles
monstruosos pássaros descritos na mitologia grega. Comemorava-se o aniversário
de Reinaldo.
Gorgônio
Regalado, o orador, apelidou-o de peru-ema. Antes mesmo de o peru-emas ser
servido, Reinaldo nos trouxe uma panela de goiamuns cevados cuja patas
avolumadas e possantes cortariam, estou certo, as presas de um elefante.
Admirado de ver “tamanhas dianteiras”, Gorgônio, após ter comido, com o auxílio
de um martelo, uns dez goiamuns, proferiu esta palavra que, entre os Inocentes,
ficaram mais célebres do que o sermão de Vieira aos Peixes.
-“Se alguém
de vós disser que comeu mil e um carangueijos e ficou com fome, não o
desmintais”. Gorgônio queria dizer que, quanto mais se come o crustáceo, mais
se acumulam as sobras e menos se mata a fome. Interrogado Saturnino por
Severino Nunes se o português de Gorgônio estava correto, o mestre levantou-se
de pata em punho, respondendo-lhe com a mesma ênfase dos superlativos de José
Dias, no Dom Casmurro: corretíssimo!... Entre os Inocentes destacava-se um
convidado especial, Ezequiel Pires, muito amigo de Severino Nunes. Em casa do
anfitrião encontravam-se Francisco Sabino e João Lima integrantes do conjunto
musical IAP, homenagem à extinta Informação da Agência Pernambucana ou os
auto-falantes pertencentes ao saudoso Luiz Romão. O peru-ema foi cuidadosamente
preparado e guisado pela esposa de Reinaldo, dona Marina. Reinaldo não
pertencia ao Clube dos Inocentes.
Vale uma
explicação. Reinaldo Ferreira da Costa, músico e sapateiro, era o homem dos
sete instrumentos. Tocava violino, no coro da Igreja de São Sebastião, nas
Rocas, e violão, no Clube Andaluzia, na Ribeira. Lá, no Clube,
divertia-se,dançando transando com as ímpias Madalenas. Cá, na igreja,
entretinha-se rezando e cantando com as piedosas filhas de Maria.
Nas horas
vagas, Reinaldo aplicava meia-sola em sapatos. Nesse assunto tem sido, até hoje
entre nós outros, superior aos sapateiros as antiga Jônia. Pelo menos jamais se
aventurou a criticar nenhum dos nossos Apeles. Tampouco necessitou de usar a
charlatanice daquele sapateiro de Èsopo que, reduzido à miséria, tentou ganhar
a vida, como médico, num lugar distante, onde ninguém o conhecia. E lá
conseguiu iludir uma boa clientela vendendo remédios falsificados e passando
diagnósticos comprometedores.
Trocando os
pés pela cabeça, saiu-se muito mal, porque adoeceu o rei, e, chamado a
socorrê-lo,como não sabia medicá-lo, obrigou-se a confessar a criminosa
aventura. O rei o puniu.Reinaldo, apesar de ter-se mudado, a um tempo, para o
Rio, ainda hoje contenta-se humildemente com os seus unstrumentos musicais. Na
sua oficina de sapateiros, sua única preocupação é aperfeiçoar o modelo das
sandálias, motivo pelo qual não quer ir além disso. Continua o homem dos sete
instrumentos. Ainda hoje bate sola, sino,violão e pandeiro coma as mesma
habilidade. Harmoniza o compasso das mãos ao ritmo dos pés. Ailson Gibson que o
diga.
Ora, como
Reinaldo Ferreira foi um grande admirador de Saturnino, e recebeu,
principescamente, em sua casa, naquele sábado, o Clube dos Inocentes, para um
banquete a patas e patos, aqui lhe dedico estas observações nas reminiscências
de nossa história, sem esquecer a frase de Gorgônio Regalado:
-Se alguém
de vós disser que comeu mil e um caranguejos e ficou com fome, não o
desmintais...
Avis Incârum
Rara
Quanto ao
peru-ema reservado por Reinaldo Ferreira ao Clube dos Inocentes, lembro-me
daquele cardapium organizado pelo latinista mineiro, Dr.Diogo de Vasconcelos,
preparado com o sal de Plínio – adita salis grano – e oferecido, num jantar, a dignitários eclesiásticos. Todos os
preparativos para a Ceia Larga foram cuidadosamente estudados em sua chácara de
Ouro Preto. Vasconcelos apresentou o seu cardapium aos sacerdotes com esta
jocosa sonoridade latina:-Prandium clericale,ut imago Coenae Domini post
solemnem benedictionem – ou seja – banquete clerical, que a semelhança de Ceia
do Senhor, realiza-se depois de benção solene.
Cardapium,
como ementa de pratos, preços e iguarias, já é etimologicamente um belo
artificio arranjado, em latim: charta daps – folha escrita com refeições. Daps,
em latim, era a refeição ritualística (sacrificio) de que se serviam os deuses.
Por este cardápio, observa-se quanto os deuses eram de paladar exigente.
Prossigamos com o prandium invitatus do humanista Diogo de Vasconcelos ou o seu
banquete canônico preparado na liturgia dos dois calendários – XII kalendas
maji MCMXVII – em maio de 1918. Saboriemos de seus preciosos acepipes:
_ Jus
pontificale – a sopa (servida as monsenhor)
_
Ostracismus atheniensis comparatus – ostras recheadas
_ Orysa
Oviparis crementa- arroz ao forno(destinado ao cônego)
_ Phaselus
tutus ob lubum – tatu de feijão com lombo.
O orador
sacro saboreou aper Davini gratia evolutas – leitão ou javali evoluído graças a
Darwin. E um canonista serviu-se regaladamente de avis incarum rara – peru ou
ave rara dos incas. Convém lembrar, nesse sutileza filológica, que o peru era a
língua primitiva falada pelas nações incas. Nesse inteligente e divertida
aproximação, Vasconcelos utilizou-se do mesmo jogo de palavras já usado por Sêneca, em – gallus (gato) e Gallus (gaulês). Já me referi a isso
anteriormente. No banquete clerical de Vasconcelos, além das alusões a Jesus
Cristo, aos incas e a Darwin, não faltou, na condimentação, uma pitada do sal
ático: astrocismus atheniensis crementa.
Assim, pois
nesse clima de avis rara ou banquetes sagrada também oferecido, nas Rocas, aos
deuses inocentes, é que entra o nosso peru-emas ou a avestruz de Reinaldo
Ferreira. Tem o mesmo sabor da avis incarum rara condimentada em Ouro Preto,
nos idos de 1918 e saboreado pelos padres de boa vida. Bem ao gosto do
latinista Vasconcelos, vamos chamar o peru-ema da fauna ”gorgoniana” de gallus
indicus, et struthiocamelus. Que me perdoem os seguidores de Darwin pela
origem dessa espécie rara ou dessa evolução espontaneamente natural.
Todas essa
glutonaria de melindrosos paladares me faz lembrar aquela rara avis in terris
mencionada na sátira de Juvenal. Entretanto, Juvenal referia-se ao cisne negro
– nigroque simillima. O peru-ema de Reinaldo teve sabor, mas não lhe vi a cor.
E por avis rara entende-se, hoje, tudo aquilo que é único ou extraordinário, do
mesmo modo que o grãozinho de sal da já deturpada frase de Plínio serve para
retemperar a moderação ou o comedimento – cum grano salis – com certa reserva.
É
extraordinariamente reservado que eu ainda ativo as glândulas salivares ao
descrever o sabor daquele peru-ema, recordando aquela ensolarada manhã de 1955,
ad kalendas aprillis. Por muito menos, o Padre Bacelar, o filólogo que fez a
língua portuguesa originar-se diretamente do grego, no seu inusitado
Dicionário Etmológico, definiu o caranguejo como “um peixe vermelho que anda
para trás”; e deu ao cágado essa desengonçada origem: sapo concho. Esses
disparates levaram um crítico a dizer que o caranguejo não é peixe nem é
vermelho nem anda pata trás. Mas, o pobre do cágado continua testudamente se
arrastando muito ancho.
Já o
Dr.Castro Lopes, rei dos neologismos, traduziu a reunião campestre que os
ingleses chamam de picnic por converscote – (banquete + escote). Escote, no
sentido de cota para as despesas, é um galicismo – ecot – reunião dos que comem
juntos. Nesse caso, o convescote criado por Castro Lopes virou algazarra numa
granja de árabes. Nesse descampado convívio em que as formigas também tomam
parte, o peru-ema de Reinaldo Ferreira perderia seu sabor, mesmo que as coxas e
a tutela fossem servidas em estilo king size sandwiches, ou seja tamanho
família.
Quanto ao Prandium
Clericale temperado na cocina ou coquina de Diogo de Vasconcelos, para
plenitude do cardapium, consulte-se Phrases e Curiosidades Latinas ,de Arthur de
Rezende. E fiquemos com a memória do peru-emas associada á avis incarum rara ou
ao gallus indicus, er struthiocamelus. Que prevaleça a inocência. Não nos
esqueçamos da filosofia do nosso clube: inocentes das maldades alheias.
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O Próximo capítulo:
O Simbolismo do Galo
e sua Entrada no Clube (página 23).
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segunda-feira, 2 de setembro de 2013
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